sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

 Cristo é a Parábola!

Cristo que sendo Deus se entregou ativamente por nós.

Jesus Cristo subindo aos céus (Foto: Reprodução/Free Bible Images)

O que é uma parábola? Resposta imediata: é uma história com sentido moral ou espiritual que Jesus contava.  Tttrrrúúú!!! Errado! Melhor: incompleto. Uma parábola é a curva plana definida como o conjunto dos pontos que são equidistantes de um ponto dado (chamado de foco) e de uma reta dada. Aprendi isto em Matemática, quando estudei as equações de segundo grau. Bom, já acordei fantasmas em alguns leitores! O que é interessante numa parábola em matemática é que partindo do ponto P, a distância até ao ponto F, é igual até à reta (vide figura). E, se mudarmos o ponto P ao longo da parábola (o cone) teremos sempre o mesmo resultado.

Parábola divina

No belo hino que temos em Filipenses 2.5-11, sobre o caráter de Cristo, Paulo traça a vida de Cristo desde a eternidade passada em que Ele existia em forma de Deus, através dos eventos da Sua vida na terra, até à eternidade futura em que Cristo será novamente glorificado com o Pai. Todo este trajeto de Cristo tem sido descrito como uma parábola. Porque começa no passado infinito, descendo até ao ponto mais humilhante de Cristo na Cruz, e depois começa uma subida vertiginosa ascendendo até ao futuro infinito. Nos dois precursos – descida/subida; humilhação/ascenção – há uma simetria perfeita. Lindo!

Duas palavras essenciais

Falando sobre a posição que Cristo desfrutava com o Pai na eternidade passada o apóstolo Paulo usa duas palavras essenciais:

Morphé

A primeira é a palavra grega morphé, encontrada na frase “em forma de Deus”. Geralmente a palavra “forma” tem a ver com os contornos exteriores dum objeto. Paulo usa esse sentido quando diz que há pessoas que “têm uma forma de religião, mas negam o seu poder” (2 Tim 3.5). Outro uso de “forma” revela uma ideia dominante no Novo Testamento. Por vezes dizemos: “hoje, estou em boa forma”. (fazemos até uma brincadeira com os dois sentidos de “forma”. Um amigo pergunta: “tudo em forma?” E respondemos: “sim, em forma redonda” – enquanto afagamos a barriga) E, aqui neste “em boa forma”, não nos referimos à forma exterior, mas a um estado de espírito interior. Sentimo-nos cheios de energia. Positivos. Com ganas de viver! É esse o sentido de Paulo no Hino de Filipenses quando ele fala do estado pré-encarnado de Cristo. Ele está efetivamente a dizer que Cristo possuía interiormente e exibia exteriormente a natureza e o carácter do próprio Deus.

A segunda palavra é ainda mais enfática. É a palavra “isos” que significa igual. Usamos o prefixo “iso”, por exemplo, para falarmos de triângulos isósceles. Um triângulo com dois lados iguais. Isométrico refere-se a medidas iguais; e isomorfo será… Isso mesmo: formas iguais. Paulo usa a palavra, em Filipenses, no sentido de que Cristo é igual a Deus. Cristo é Deus. Todavia, a maravilha é que Cristo não se agarrou ao facto de “ser igual (isos) a Deus” (Fil 2.6), antes Ele colocou de lado a Sua Glória para se tornar homem, e sendo “achado em forma (a palavra aqui é schema que remete para as circunstâncias do ser humano, diferente de morphé = carácter de Deus) de homem” (Fil 2.8), morreu por nós, recebendo de volta a Sua Glória, e sendo adorado como Senhor por toda a criatura inteligente. “O nome que está acima de todo o nome… é O Senhor” (Fil 2.9,11). A palavra no grego é Kurios que significa supremo em autoridade, o controlador máximo. Então, o fluir deste Hino corre para a homenagem que todo o universo rende a Cristo: Jesus é Senhor, Rei Supremo, Presença Imperial. Na verdade, a linguagem Paulina entronca diretamente em Isaías 45.23, onde Deus declara ser Ele mesmo o alvo da adoração cósmica: “a Mim todo o joelho se dobrará, e toda a língua confessará que Eu Sou Jehová”.

Como reagir à Divindade de Cristo?

Como reagir a este carácter de Cristo que sendo Deus se entregou ativamente por nós, e foi obediente até à morte na Cruz? Naturalmente, a reação envolve todo o nosso tecido existencial. Mente, coração e vontade. Os elementos da Sua Glória são tão abrangentes que nada para além da nossa total devoção a Ele, será suficiente. A Glória da sua Divindade requer de nós uma harmonia completa em obediência. Ele é Soberano. A Glória da Sua humilhação nos constrange a amar como fomos amados, a sermos graciosos como a Sua Graça que nos alcançou. A Glória da Sua exaltação, nos leva a erguer cânticos de vitória ao “Pai que levantou o Seu Filho dos mortos”. E a Glória do Seu Reino Sacerdotal, intercedendo à direita de Deus Pai por nós, motiva-nos a reconhecer Cristo como Rei Misericordioso que dispensa “ajuda em tempo de necessidade”.

Em 2 Cor 3.18 lemos que “todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a Glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”. Lindo! Contemplar a Glória de Cristo faz-nos mais semelhantes a Ele. Devagar (por vezes penosamente) Deus nos transforma à imagem do Seu Filho. Passo a passo. Piano, piano! Os italianos usam esta expressão para algo que acontece ou progride pouco a pouco. Piano, piano Deus vai quebrando coisas nocivas em nós, nutrindo graça. E isto, enquanto “contemplamos a Sua Glória”. Há algo de inexplicável aqui. Mas, esta é a marca do Cristão: refletir o carácter divino de Cristo.

Filipe Samuel Nunes - Formou-se em Teologia na Inglaterra, exerceu trabalho pastoral durante 25 anos em Portugal e vive há 12 anos no Brasil onde ensina Inglês como segunda língua.

 


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